MEIO AMBIENTE

Folha de São Paulo, segunda-feira, 11 de julho de 2011

Dinamarqueses vão importar lixo para geração de energia
Usina gigante que deve ficar pronta em 2016 absorverá mais do que Dinamarca é capaz de produzir em resíduos.
País escandinavo já processa totalidade de dejetos; ideia é investir em queima de lixo para a produção de biogás

SABINE RIGHETTI 
ENVIADA ESPECIAL A COPENHAGUE
 

A produção de biogás e outros produtos a partir de lixo está dando tão certo na Dinamarca que o país deve importar resíduos a partir de 2016. Nesse ano ficará pronta uma nova usina de processamento de lixo da cooperativa Amagerforbrænding, hoje a segunda maior do país.

A ideia é comprar resíduos de países do norte e do leste da Europa, como Alemanha e Polônia, para dar conta da capacidade total da usina. Hoje, a Dinamarca processa 100% do lixo que produz em empresas privadas e em cooperativas sem fins lucrativos (esse é o caso da Amagerforbrænding).

A população separa o lixo em casa e também leva os recicláveis até postos de troca. "Os dinamarqueses estão bastante acostumados a trocar garrafas de plástico e latas de alumínio por moedas", disse à Folha a ministra do Clima e Energia da Dinamarca, Lykke Friis. A Amagerforbrænding processou no ano passado cerca de 400 mil toneladas de lixo, ou 400 caminhões carregados todos os dias.

ADEUS AOS FÓSSEIS

O tratamento de lixo reduz a emissão de CO2, principal gás do aquecimento global. Além disso, no caso da Dinamarca, o biogás produzido a partir do lixo substitui os combustíveis fósseis que seriam usados para aquecimento das casas. De acordo com Vivi Nør Jacobsen, da cooperativa, 4 kg de lixo processados na usina equivalem a 1 l de óleo para aquecimento das casas.

"A atividade da usina está dentro da proposta do governo de acabar com o uso de combustíveis fósseis no país até 2050", explica Jacobsen. A Amagerforbrænding também tem uma proposta de aproximar o processamento do lixo da sociedade. A nova fábrica será em Copenhague, assim como a atual, que é de 1970 e se destaca por ser limpa e colorida.

A diferença é que a usina que será inaugurada ficará ainda mais perto do palácio real dinamarquês e funcionará como um espaço público, tendo até pista de esqui. "Queremos mostrar que uma usina de processamento de lixo não precisa ser feia e fedida", explica Jacobsen.

No Brasil, algumas iniciativas de reciclagem funcionam bem. Por exemplo, quase todas as latinhas de alumínio são recicladas no país. Os lixões a céu aberto continuam predominando no Brasil pelo menos até 2014. Esse é o prazo final estipulado pela Política Nacional de Resíduos Sólidos, sancionada no ano passado, para que todos os lixões sejam completamente fechados.O objetivo é ter aterros sanitários para os resíduos que não possam ser tratadas - e reaproveitar o restante.

A jornalista SABINE RIGHETTI viajou a convite do Consórcio do Clima da Dinamarca

 
    ________________________________________



________________________________________




Folha de São Paulo, domingo, 06 de fevereiro de 2011

 

O Xingu do século 21 ameaçado

CAOHAMBURGER


_______________________________________________________________________
Se nossos dirigentes tivessem interesse em entender a cultura dos indígenas, abortariam qualquer projeto que os ameaçasse, como Belo Monte
_______________________________________________________________________

Em 2011, o Parque Indígena do Xingu está fazendo 50 anos. Algo profundo mudou na minha percepção de mundo enquanto conhecia o parque e sua história durante a produção do filme "Xingu".
Sem dúvida, é um dos maiores patrimônios do Brasil -e nós, brasileiros, não temos a menor ideia do que ele representa e do que está protegido ali. Criado em 1961, é a primeira reserva de grandes proporções no Brasil.
Abriga povos de cultura riquíssima e filosofia milenar, que vivem em equilíbrio, preservando seu modo de vida, sua dignidade, sua cultura e vasta sabedoria, assimilando só o que vale a pena do "mundo de fora", sempre em sintonia com a natureza exuberante. Um verdadeiro santuário social, ambiental e histórico no coração do Brasil.
Mas não estamos falando só de preservação do passado e da natureza. O que está sendo protegido ali é o futuro. Não o futuro visto com os óculos velhos, sujos e antiquados que enxergam o progresso da mesma maneira como enxergavam nossos bisavós na Revolução Industrial, mas o futuro do século 21.
Esse talvez seja o maior patrimônio do Brasil hoje. Mais valioso que todo o petróleo, soja, carne, ferro que tiramos do nosso solo, ou todo automóvel, motocicleta, geladeira que fabricamos.
O que está protegido ali é um novo paradigma de como o ser humano pode e deve viver. Não estou dizendo que precisamos morar em ocas, dormir em redes, tomar banho no rio e andar nus. Falo de algo mais profundo.
Algo novo para nós, ditos civilizados, que nascemos e fomos criados como os donos do planeta. Arrogantes e prepotentes, nos transformamos no maior agente destruidor do nosso próprio habitat.
Um exército furioso de destruição. Um vírus que se multiplica e ataca, transformando e destruindo tudo o que encontra em seu caminho na presunção de que estamos construindo um mundo melhor, mais seguro, mais confortável, mais rentável. No Xingu, progresso tem outro significado.
No Xingu, homens e mulheres não vivem como donos do mundo, não foram criados com essa arrogância. Vivem como parte da cadeia de vida do planeta, e essa cadeia é interligada e interdependente. O "progresso" e o bem-estar dos homens está ligado ao equilíbrio dessa cadeia. Para os índios, homem e natureza evoluem juntos. Golpe baixo.
Mas a megausina de Belo Monte quer represar o rio Xingu. O rio que é a alma e a base da vida das comunidades indígenas da região.
Um golpe baixo, em nome do progresso. Progresso com os velhos parâmetros dos séculos 19 e 20, que tem levado o mundo ao colapso social e ambiental.
É isso que queremos?
Se nossos dirigentes e a sociedade como um todo se interessassem em entender a filosofia, a cultura e a inteligência dos povos indígenas, abortariam qualquer projeto que os ameaçasse.
E poderíamos inaugurar novo paradigma de progresso.
O progresso do equilíbrio. Seríamos a vanguarda mundial do século 21. Essa é a demanda. Essa é nossa chance. Sejamos corajosos, ousados, visionários. Como foram os que lutaram pela criação do Parque do Xingu há 50 anos.


CARLOS IMPÉRIO HAMBURGER, 48, é diretor de cinema e televisão. Atualmente finaliza o filme "Xingu", sobre a criação do Parque Indígena do Xingu.


________________________________________

Folha de São Paulo, São Paulo, Segunda-feira, 01 de março de 2010
 

O futuro do planeta está nas cidades

Por: JONAS RABINOVITCH

A experiência mostra que as cidades médias que mais crescem no presente não deveriam repe tir os erros do passado

VIVEMOS NUM mundo complicado: desperdiçamos por ano US$ 1,5 trilhão em corrupção, US$ 1 trilhão em armamentos e US$ 600 bilhões em subsídios agrícolas, e 2% das pessoas são donas de metade do planeta. Mas quanto vale o planeta? Economicamente, vale quanto produz. Todos os PIBs de todos os países somam US$ 60 trilhões por ano. Com 6 bilhões e 800 milhões de pessoas, isso daria uma "renda" de apenas US$ 750 por mês para cada um, se o "comunismo total" triunfasse. E quanto vale o potencial do planeta? Um estudo da UNU-Wider mostra que a soma total de todos os recursos naturais e financeiros do planeta seria da ordem de US$ 125 trilhões, incluindo terras, bens imóveis, transações financeiras, bens de capital etc.


Ou seja, se o capitalismo selvagem triunfasse e o planeta todo fosse transformado em dinheiro, cada pessoa nunca receberia uma "renda máxima" de US$ 1.500 por mês.O que está errado em tudo isso, além da simplicidade dos meus cálculos? Parece que foi um grande erro passar décadas brigando se o mundo deveria ser capitalista ou comunista.


Todas as pessoas precisam de educação, saúde, trabalho, transporte e habitação independentemente de partido político, religião ou sistema de produção. O planeta e suas políticas de desenvolvimento não podem ser definidas só por meio de cálculos econômicos ou propaganda política.Por exemplo, uma escultura de Rodin pode valer US$ 10 milhões, mas sempre vai valer muito mais do que se colocarmos um saco com US$ 10 milhões sobre um pedestal. A globalização é uma realidade, mas gerenciar o planeta por essa perspectiva ainda não seria realista. Só quando os custos ambientais forem devidamente embutidos em todos os cálculos econômicos poderemos realisticamente pintar desenvolvimento por meio de números.
Enquanto isso não acontece, parece fazer sentido solucionar todos os desafios de educação, saúde, trabalho, etc. por meio de unidades gerenciáveis que permitam a participação de cada cidadão, com direitos e deveres.


A boa notícia é que essas unidades já existem: chamam-se cidades. A má notícia é que elas continuam sendo vistas -com ou sem razão- como fonte de problemas, corrupção e mau gerenciamento.Afinal, há alguma coisa errada em desenhar sistemas políticos que funcionem para atender às necessidades básicas da população? As grandes inovações que permitiram o crescimento e a verticalização das cidades aconteceram há mais de cem anos: eletricidade, automóvel, sistemas de abastecimento de água, concreto armado etc. Hoje em dia, não acredito que inovações urbanas sejam necessariamente tecnologias milagrosas ou fórmulas mágicas que automaticamente resolverão todos os desafios. Inovações são processos -não eventos pontuais-, mas precisamos apresentá-las pontualmente para que sejam entendidas.


Com frequência, apenas fazer com que a administração pública acompanhe as mudanças já necessita inovações. Além disso, enxergar a cidade de forma integrada, eliminar fontes de corrupção, engajar a população de forma participativa, aumentar a transparência e o acesso aos serviços públicos são elementos comuns a várias cidades inovadoras. Por exemplo, Curitiba mostrou que é possível controlar e direcionar seu crescimento. Em Seul, Coreia do Sul, os cidadãos participam de decisões sobre políticas públicas por meio de seus computadores. Na Índia, Estado de Gujarat, cidadãos usam o computador para monitorar a qualidade da água. Em Zâmbia, África, administrações locais usam clínicas ambulantes em ônibus para levar saúde básica para áreas periféricas.


E mais: em Antígua e Barbuda, os ônibus são salas de aula para estudos de computação para crianças da periferia. Na Eslovênia foi possível diminuir de 60 para quatro o número de dias necessários para abrir uma empresa pequena ou média, sem custos para o empresário. No Chile, o site governamental ChileCompra traz informações sobre todas as concorrências públicas de forma transparente. A primeira Conferência Internacional sobre Cidades Inovadoras (Curitiba, 10 a 13 Março) examinará essas soluções e muitas outras.


A experiência e as informações existentes mostram que as cidades médias que mais crescem no presente não deveriam repetir os erros do passado. Em suma, a criatividade, aliada a recursos humanos, tecnológicos e administrativos, já mostra que é possível desenhar um futuro muito melhor para todos os cidadãos a partir das cidades do planeta.

 

JONAS RABINOVITCH, arquiteto e urbanista, é conselheiro sênior da ONU para assuntos de administração pública e gestão do conhecimento.

voltar ao topo


________________________________________


Avatar 

Por: MARCELO GLEISER
Folha de São Paulo, São Paulo, domingo, 
10 de janeiro de 2010
   

MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro "A Harmonia do Mundo".

Não temos a opção de ir a outro planeta atrás de recursos que esgotamos 

O tão comentado filme de James Cameron, "Avatar", 
explodiu nas telas terráqueas em dezembro. Parece
que já arrecadou mais de US$ 1 bilhão, superando
seus enormes custos (US$ 237 milhões na produção
e mais US$ 150 milhões de marketing e promoção).
O que se poderia esperar do diretor de "Exterminador
do Futuro", "Alien" e "Titanic"? Com certeza, muita
ação e efeitos especiais. E uma história que não inspira muito. 
Pelo menos, essa era a minha expectativa antes de assistir ao filme.

 
Sem dúvida, ação e efeitos especiais não faltaram. As técnicas de computação gráfica são revolucionárias e iniciam uma nova fase na história da cinematografia. Mas me enganei na história. Extremamente oportuna e necessária, a criação de Cameron faz, de forma muito bela e eficiente, o que milhares de cientistas vêm tentando há anos: mostrar às pessoas os riscos da exploração desordenada das fontes de riqueza de um planeta. O que se passa em Pandora, um planeta distante (aparentemente uma lua de um planeta gasoso), é uma metáfora para o que acontece aqui na Terra. Alguns podem até afirmar que é óbvia demais, quase trivialmente revivendo os antigos filmes de faroeste. A diferença é que, agora, os "mocinhos" são os malvados e os "índios" são os bonzinhos. Mas, às vezes, é necessário simplificar a mensagem para que seu conteúdo atinja o objetivo desejado. Kevin Costner fez o mesmo em "Dança com Lobos". O filme é um dos mais belos que já vi. As árvores majestosas e seus "espíritos", uma representação da hipótese Gaia -segundo a qual a Terra como um todo é um ser vivo- são pura poesia visual. Um paraíso inspirado por visões de uma floresta tropical não tão diferente da nossa Amazônia. 

O time corporativo, interessado em explorar a qualquer custo o minério que existe sob as vilas dos Na'Vis-os habitantes azuis de três metros de altura que vivem em completa união com a natureza -representa a cobiça das corporações multinacionais que invadem terras distantes para fazer o mesmo, pouco ligando para as tradições e costumes locais.


O filme me fez pensar nas indústrias farmacêuticas norte-americanas e europeias e seu interesse em extrair conhecimento e riqueza da medicina nativa e da biodiversidade da Amazônia e de outras florestas. Seguindo a tradição das histórias de extraterrestres, o filme de Cameron usa sua existência como um espelho de nós mesmos, das nossas ações -ou, ao menos, das ações de potências expansionistas- contra os povos nativos. A mesma temática do encontro dos europeus com os nativos das Américas e da África.


A mensagem do filme é simples: se não controlarmos o ritmo em que estamos explorando as riquezas do nosso planeta, em breve não teremos mais o que explorar. Como o zinco, por exemplo, que deve se esgotar em torno de 2040. Outros metais têm o mesmo destino. No filme, temos a opção de ir a outro planeta encontrar o que não temos aqui.  O metal "unobtainium" (que significa "que não pode ser obtido") é uma óbvia metáfora para qualquer preciosidade rara por aqui. A realidade, infelizmente, é que não temos esse tempo todo. E nem a opção de irmos a um outro planeta. Temos que resolver nossos problemas por aqui mesmo. E o mais rápido possível.


No filme, a natureza, a força vital que move Pandora, junta-se aos nativos e ajuda a derrotar o exército corporativo. Na Terra, estamos sozinhos nessa guerra contra nós mesmos. Como escrevi antes, somos nossos piores inimigos e nossa única esperança. A natureza não vai nos ajudar.

Clique aqui para ver uma apresentação em Power Point

voltar ao topo

________________________________________ 


A nova civilização brasileira 

Por: ABRAM SZAJMAN
Folha de São Paulo, São Paulo, domingo, 04 de outubro de 2009

Sabemos que não podemos manter uma produção industrial de bugigangas programadas para se tornarem obsoletas. Vivemos um momento único e decisivo de transição na nossa história. Sabemos cada vez com mais clareza que não se pode dar sequência a uma produção industrial de bugigangas programadas para se tornarem obsoletas em tempos cada vez mais curtos.

Sabemos que o processo produtivo baseado na propriedade acumulada sobre bens de capital deverá ser gradativamente substituído por um desenvolvimento lastreado no capital humano, base da sociedade do conhecimento informatizado. Sabemos que é preciso encontrar um equilíbrio nas taxas de crescimento demográfico, já que, diante de volume finito dos recursos naturais, quanto maior a população, menor sua qualidade de vida.

Sabemos, ainda, que as decisões das questões mundiais não podem mais ficar ao sabor de um punhado de nações ricas, que não conseguiram criar os instrumentos necessários para controlar os excessos e o potencial destrutivo de um capital financeiro focado na especulação, em detrimento da produção. Em resumo, sabemos que a herança de 500 anos das revoluções comercial e industrial, com seus colonialismos, imperialismos e modelos econômicos destrutivos e assimétricos, está esgotada. Ainda não sabemos, porém, quais serão os contornos definitivos de um novo padrão civilizatório, capaz de nos livrar da barbárie social e da hecatombe ambiental. Mas, no momento em que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, defende perante o Congresso de seu país um sistema de saúde pública argumentando que seu custo -US$ 900 bilhões em uma década- será menor do que os gastos das guerras do Iraque e do Afeganistão, podemos ter esperança de que uma nova consciência esteja de fato surgindo entre os poderosos do globo.  Dessa forma, é possível vislumbrar um mundo em que uma nação seja respeitada menos por ser potência militar e econômica e mais por sua atitude ambiental e sua capacidade de disseminar a paz e a justiça social.

O Brasil, que em cinco séculos de existência situou-se na periferia do desenvolvimento econômico, tem agora a chance de vir a ser o que é de sua natureza: o líder em sustentabilidade e inclusão social. Não temos conflitos internos de caráter étnico ou religioso nem problemas graves com nossos vizinhos. Possuímos a matriz energética mais limpa de todas. Recentemente, incorporamos milhões de pessoas aos mercados de trabalho e de consumo. 

Falta-nos, entretanto, consolidar esses avanços sem cometer desatinos, como seria o de relegar a um segundo plano, em razão do petróleo no pré-sal, tudo o que já alcançamos e o que ainda podemos obter com o etanol e os biocombustíveis.  Precisamos investir mais em pesquisa e desenvolvimento de produtos e serviços socioambientalmente sustentáveis. Devemos insistir na educação pública de qualidade, que, com instrumentos de democracia participativa, ajude a retirar da letargia em que se encontram grandes contingentes da população, manipulados eleitoralmente por oligarquias interessadas em perpetuar seu poder sobre um Estado ineficiente, sugado pela corrupção endêmica. Muito além de modelos econométricos, a nova civilização brasileira deve ser acima de tudo ética, pois só assim estará comprometida com um mundo que preserve a paz e a vida.


ABRAM SZAJMAN , 70, empresário, é presidente da Fecomercio-SP (Federação do Comércio do Estado de São Paulo), do Centro do Comércio do Estado de São Paulo, dos conselhos regionais do Sesc (Serviço Social do Comércio), e do Senac (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial) e do Conselho Deliberativo do Sebrae-SP (Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas).

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br 

voltar ao topo


________________________________________ 


                                  Bfolha2iodiesel: geração de emprego no campo e diversificação da matriz energética 

Portal do Governo Brasileiro, 03 de julho de 2009
http://www.brasil.gov.br

O governo federal pretende autorizar a entrada do biodiesel no mercado nacional de combustíveis até o final deste ano. O marco regulatório autorizando o novo produto deverá ficar pronto até novembro. O biodiesel poderá ser adicionado ao óleo diesel mineral na proporção de 2%, sem comprometer a garantia dos motores de veículos. Por proposta do governo federal, a Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) se comprometeu a manter a garantia dos motores a diesel com a adição desse percentual. O biodiesel também poderá ser empregado na geração de energia elétrica em comunidades isoladas. A entrada do novo combustível no mercado nacional vai permitir a redução da importação do diesel, que hoje é de cerca de 9%, a criação de empregos no meio rural por meio da agricultura familiar e o desenvolvimento da indústria nacional de pesquisa e equipamentos.

O marco regulatório prevê resoluções da Agência Nacional de Petróleo (ANP) estabelecendo os requisitos técnicos e parâmetros de controle de qualidade do novo combustível, além da estruturação da cadeia produtiva. Também serão editados os instrumentos legais para definição dos tributos, que estão sendo elaborados pelo Ministério da Fazenda. O Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel tem o objetivo de introduzir um novo combustível na matriz energética brasileira a partir de projetos auto-sustentáveis, considerando preço, qualidade, garantia do suprimento e uma política de inclusão social. Em dezembro de 2003 foi instituído, por decreto presidencial, a Comissão Executiva Interministerial do Programa, coordenada pela Casa Civil e integrada por 14 ministérios. Em março deste ano, a Comissão Executiva aprovou o plano de trabalho, que está em andamento. Em abril, a Comissão Executiva Interministerial (CEI) Biodiesel definiu quatro metas prioritárias visando à autorização para uso do biodiesel no mercado em novembro de 2004.

O governo federal, de acordo com essas metas, está desenvolvendo critérios para implantação de mecanismos de estímulo à inclusão social. Será criada uma Certificação Social do Biodiesel para os produtores que adotarem políticas de incentivo à participação da agricultura familiar na produção de matéria-prima e atendimento social nas suas áreas de cultivo. Os produtores certificados terão benefícios na adoção de políticas públicas específicas, entre elas, incentivos tributários. Para o desenvolvimento de pesquisas sobre o biodiesel foram destinados R$ 8 milhões dos fundos setoriais CT-Petro e CT-Energ, geridos pelo Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT). Também serão aplicados R$ 4 milhões do Programa Investimentos na Amazônia em ações para o desenvolvimento do programa.

Outro investimento está sendo feito pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), que destinou R$ 250 mil para pesquisa de tecnologia de geração de diesel vegetal em pequena escala desenvolvida pela Universidade de Brasília (UnB) e pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). O projeto prevê o desenvolvimento de um equipamento-modelo, ao custo médio de R$ 10 mil a unidade, capaz de produzir cerca de 500 litros/dia de biodiesel. A máquina, que será reproduzida de acordo com a demanda, poderá processar girassol, soja e dendê. A tecnologia permite a redução dos custos com a substituição (parcial ou total) do diesel convencional pelos agricultores.

Geração de empregos e energia

Para incentivar o plantio por pequenos produtores, o Programa Nacional de Agricultura Familiar (Pronaf) criará uma linha de crédito de cerca de R$ 100 milhões. A meta é envolver, nos próximos dois anos, 38 mil famílias, das quais 30 mil no Nordeste, onde as condições são favoráveis para a produção de mamona. A participação dos agricultores na produção de matéria-prima para o biodiesel permitirá a geração de renda adicional de cerca de R$ 93 milhões por ano.

O Brasil dispõe de um grande número de matérias-primas para a produção de biodiesel, como mamona e dendê, e de solo disponível em regiões pouco desenvolvidas economicamente. Estima-se que a produção de biodiesel para atender ao percentual de mistura de 2% possa gerar mais de 150.000 empregos em 2005, especialmente na agricultura familiar. O biodiesel também poderá ser utilizado na geração de energia elétrica em comunidades isoladas, a maioria na região Norte.

Já estão em andamento projetos da iniciativa privada para produção de biodiesel. A Brasil Ecodiesel plantou 2,5 mil ha de manona, em 2003, no núcleo de produção em Canto do Buriti (PI), Em 2004, planeja plantar 58 mil ha e produzir 25 mil toneladas/ano de matéria-prima. A Brasil Ecodiesel já adquiriu uma planta da Tecbio, com capacidade de produção de 25 milhões de litros/ano, e início de operação previsto para maio de 2005. A planta será instalada no município de Floriano (PI).

A Agropalma está construindo, em Belém (PA), uma planta de 8 milhões de litros/ano, com previsão de expansão para 15 milhões litros/ano. A empresa vai utilizar o óleo de dendê. O Grupo Biobrás possui capacidade instalada para produzir 60 milhões de litros/ano de biodiesel, a partir da soja, mamona e girassol, em unidades localizadas em Minas Gerais, São Paulo, Mato Grosso e Paraná. Em Mato Grosso, a Ecomat opera uma planta de 14,6 milhões litros/ano a partir da soja.

Também em Mato Grosso, 63 famílias de agricultores dos assentamentos Paulo Freire, 14 de Agosto e 28 de Outubro já iniciaram a colheita de girassol para produção de biodiesel. A iniciativa faz parte do projeto-piloto de biodiesel desenvolvido pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) em parceria com a Adequim/Grupo Biobrás. Trata-se da primeira experiência de plantio do girassol para produção e combustível em assentamentos da reforma agrária no Brasil.

Além do suprimento interno, em um segundo momento o programa prevê a exportação do biodiesel, que já é utilizado nos Estados Unidos e em países da Europa, como França e Alemanha. Em 2003, segundo a European Biodiesel Board, braço da Comunidade Européia que trata do tema, a produção nos países do bloco foi de 1,434 milhão de toneladas, com um aumento de 35% em relação a 2002. Até 2005, a meta da União Européia é de que 2% dos combustíveis consumidos sejam renováveis; em 2010 este percentual deve ser de 5,75%, de acordo com a diretiva 30 do Parlamento Europeu, de maio de 2003. O uso do biodiesel em outros países dá segurança ao Brasil para a implantação do Programa em relação às questões técnicas, econômicas e ambientais.

Comente este artigo

voltar ao topo

________________________________________

 
Hábitos de consumo: por que é tão difícil mudar?

Por Neuza Árbocz, jornalista para a Envolverde

A situação ambiental atual pede novas formas de realizar negócios, buscando construir um mundo em equilíbrio com o ritmo de renovação da Natureza. A grande questão para as indústrias e empresas é, contudo, como fazer frente ao crescimento, constante, do consumo. O primeiro "R" do "Reduzir, Re-utilizar e Reciclar" está sendo ignorado solenemente, segundo dados de mercado.

A crise que deu ao planeta um tempo de descanso, já dá sinais de enfraquecimento, tendo sido, inclusive, amenizada por medidas imediatistas, como a redução de IPI justamente para carros, um dos elementos centrais da poluição atmosférica e de stress e conflito nos grandes centros urbanos. Mercado se aquecendo, as indústrias precisam encontrar uma forma de ampliar a produção, para manter preços estáveis e evitar antigos fantasmas como o da inflação.

O vício nas datas comemorativas impulsiona ainda mais a roda do consumo, sempre em movimento. E a mais temível de todas as datas, o Natal, logo baterá a nossas portas novamente, provocando ondas de compras de todo tipo de produtos; mesmo os supérfluos, que ficam jogados em gavetas ou aqueles nada duráveis, que estragam mal começamos a usar. Mas afinal, quem quer arriscar novas formas de demonstrar afeto e carinho, sem os tradicionais presentes?

Será que alguém acredita ser possível mantermos estes costumes e diminuir, ao mesmo tempo, o impacto provocado nos ciclos naturais que sustentam nossas vidas? Provavelmente, muitos já diriam que consumir num ritmo tão constante e acelerado não faz mesmo sentido. Contudo, parar de comprar de fato é, ainda, uma atitude de poucos.

Consumo x realização pessoal

Desejamos muitas coisas das quais não precisamos. Comprar coisas chiques, exclusivas e desnecessárias seria uma forma de atender nossa vontade de nos diferenciarmos, de nos sentirmos únicos, segundo o professor e teólogo Jung Mo Sung. Sung explicou, durante uma mesa redonda no Simpósio de Sustentabilidade Planetária organizado pela Fundação Mokiti Okada, nos dias 18 e 19 de agosto em São Paulo, que há 250 anos estamos sendo condicionados a ligar nossa realização pessoal ao consumo.

Para o estudioso, todos nós temos um desejo infinito de Ser e de Ser infinitamente e isto não se preenche com objetos e compras. Mas, como não sabemos exatamente o que queremos ser, temos esta compulsão de tentar completarmos-nos com que há no exterior. Contudo, isto não nos preenche. "Não é possível possuir o infinito", ressalta. "Resolver a Sustentabilidade Planetária é definir como diminuir o sofrimento e aumentar a dignidade e a alegria de viver. Só se atinge a almejada infinitude através do amor mútuo". Para Sung, só este amor tem força bastante para inspirar que se abra mão dos desejos pessoais pelo bem do coletivo. E este amor tem que ser expresso no presente, aqui e agora.

Contudo, ele adverte que é preciso uma visão prática e não romanceada da realidade. "Amar a Natureza e mantê-la intocada é um discurso lindo, mas se torna difícil na prática. Podemos amar as plantas e os animais. Mas, precisamos comer. Aí como faz?", comenta o professor. "É natural defendermos que todos merecem uma vida com conforto. Mas se cada ser humano dos 6,5 bilhões que somos recebesse um rolo de papel higiênico branquinho por semana, que fosse; de onde tiraríamos tantas árvores para produzi-los?", questionou.

Além disto, a complexidade do dia-a-dia nos impede de abandonar certas atitudes, como por exemplo, abrir mão de transportes poluentes. Como dar conta de uma agenda cheia sem usar um carro, numa grande metrópole? Aqueles que tentam se deparam com transporte público insuficiente e, não raro, precário; falta de ciclovias e, muitas vezes, falta até de calçadas seguras para caminhar. "Outro fator que dificulta mudanças é que nos últimos 10 mil anos, grande parcela da população vive acreditando que Deus resolve a história e tudo acabará bem no final. Então, como se motivar a fazer sacrifícios agora, pensando num futuro que já se crê definido?", continuou Sung.

Somos a Vida da Terra

Uma resposta a esta contradição foi sugerida pela Monja Coen, presente na mesma mesa. A religiosa da tradição Zen Budista esclareceu que somos a vida na terra. "Por ignorância, nos percebemos separados, o que nos deixa com "cor rupto" - coração partido, em latim. Neste estado, confundimos nossas necessidades verdadeiras. Se nos víssemos como parte do todo, como realmente somos, agiríamos com gratidão por tudo que existe e nos mantém vivos. Esta gratidão construiria o equilíbrio que está faltando no uso do que a Natureza nos oferece".

Quanto à alimentação, ela relembrou o caso de um monge da mesma tradição que ao ser indagado como aceitava provocar a morte de um peixe - seu prato predileto - para comê-lo, respondeu: "Peixe está se tornando monge", referindo-se ao ciclo contínuo de transformação em que tudo está mergulhado. "O universo está em constante mudança", ressaltou a monja.

Ela destacou a importância de se cuidar de nosso efeito sobre o todo. "O primeiro ambiente de que temos que cuidar, é o nosso próprio corpo. Se partirmos dele, perceberemos que gostamos de ar puro, de água pura e de viver sem violência...". Ao despertar para nosso interior e sua conexão com o todo, podemos dar o melhor de nós, a todo o momento. "Não se trata de fazer o possível. Mas fazer o melhor, pensando em todas as formas de vida ao nosso redor. Eu acredito que somos capazes de dar uma virada e formar uma vida na Terra maravilhosa. Isto tem que começar com seres humanos bons e éticos. Aquilo que pensamos, falamos e fazemos influi e transforma o que existe. O ser humano precisa mudar no seu coração, na sua essência", defendeu Coen. "Eu acredito que somos capazes de fazer a transformação que queremos na Terra. Nosso destino depende de nosso pensamento coletivo", falou a mestra.

Depois dela, o ministro Fernando Augusto de Souza, da Igreja Messiânica, ressaltou que pesquisas já mostraram que aumentar o consumo e a renda não traz mais felicidade. Ele concorda que tudo que expressamos, seja em pensamento, fala ou ação, reflete naquilo que está acontecendo e nos faz um convite para adotarmos o 'regime do relógio do sol'.

"O que faz o relógio do sol? Ele só marca os momentos iluminados. Assim, se formos falar, escrever, produzir arte ou que quer que seja, podemos escolher nos expressar sobre momentos iluminados, momentos que nos inspiram; onde o bem, o bom e o belo se manifestam" falou Augusto, alinhado com o saber antigo que diz: aquilo em que colocamos nossa atenção é o que cresce. "Nosso desafio maior é expressar a Verdade do plano divino, neste mundo de aparência", concluiu o religioso.

Comente este artigo

voltar ao topo


________________________________________


Peru recua e inclui 
indígenas em diálogo


Governo havia vetado 
principal associação da selva em fórum; manifestantes exigem 
troca de ministros


Folha de São Paulo, 13 de junho 
de 2009
Redação com agências 
internacionais



Horas depois de promover o primeiro encontro do recém criado Grupo Nacional de Coordenação para o Desenvolvimento dos Povos Amazônicos sem a principal associação indígena do país, o governo Alan García recuou e informou ontem que aceitará dialogar com os líderes dos protestos que sacodem o país há mais de dois meses.Lima havia anunciado anteontem que a Aidesep (Associação Interétnica  de Desenvolvimento da Selva Peruana), que existe há 30 anos e representa cerca de 300 mil indígenas, estava excluída do novo grupo, que debaterá um plano de desenvolvimento da Amazônia. García responsabiliza a entidade pelos confrontos no norte que causaram ao menos 34 mortes em 5 de junho, segundo cifras oficiais. O governo conservador de Alan García criou o novo fórum para tentar aplacar a crise política provocada por mais de dois meses de protestos do movimento indígena contra um pacote legal pró-investimentos na selva baixado sem consultar a população originária.

Mas, se o governo recuou, a Aidesep ainda exige que García troque os interlocutores na negociação. O pedido vira pressão explícita do Partido Nacionalista (do candidato vencido por García em 2006, Ollanta Humala) pela queda do presidente do Conselho de Ministros (premiê), Yehude Simon. Na quarta, o Congresso aprovou a suspensão por prazo indeterminado de dois decretos aos quais o movimento indígena peruano se opõe, mas a Aidesep exige que eles sejam revogados. Falando a empresários, o presidente Alan García manteve o tom duro e disse que o "comunismo internacional" está por trás dos protestos e quer provocar o caos.

Ontem, a Defensora do Povo (ouvidora pública), Beatriz Merino, criticou a falta "vontade política efetiva"dos dois lados. Atacou o veto à Aidesep, horas depois revertido. No sudeste, manifestantes camponeses interromperam ontem a principal estrada de acesso ao aeroporto da cidade andina de Andahuaylas, na região (Estado) de Apurímac. Os participantes do protesto chegaram a ocupar a pista de pouso. Em Andahuaylas, de 34 mil habitantes e próxima da turística Cusco, lojas e restaurantes não abriram as portas pelo segundo dia, temendo saques.

Manifestantes que há semanas bloqueiam a estrada de 130 km que liga as cidades de Tarapoto e Yurimaguas, no norte do país, permitiram a passagem de caminhões por duas horas pela manhã e mais duas à tarde. As duas cidades, a 1.000 km de Lima, já sofrem desabastecimento, que provocou alta nos preços de comida e gás. Em Yurimaguas, além da estrada, os indígenas tomaram um porto no rio Huallaga.

 

 

Comente este artigo

voltar ao topo

 
  Site Map