URUBAMBA
Astrid Cabral
Línguas d'água
barbas e bigodes de espuma
o rio lambe as pedras qual bicho
as recém-nascidas crias.
Só que as pedras são filhotes das montanhas
paridos em antigo parto sísmico.
De longe até parecem um rebanho
cujas formas agudas se perderam
na lima de milênios. Lhamas? Vicunhas? Alpacas?
Algumas menores até lembram ovos fósseis
de extraviado pré-histórico lagarto ou ignoto sáurio.
Só que o rebanho pasta imóvel.
As pedras presas por raízes de peso
são pausas brancas e têm pacto
com as paquidermes montanhas
hieráticas em molduras sagradas.
Mas o Urubamba célere, incontido
foge do cárcere da cordilheira
a vasta muralha dos paredões a pique.
Pés d'água e rendas pelo ombro
ventre prenhe de trutas e murmúrio de mar na garganta
o caudal vai ultrapassando as pedras
rompendo o verde paralítico das margens
atrás do escancarado céu em frente
lá onde abraçado ao regaço do Amazonas
soma-se ao oceano arregaçando auroras
sustentando navios gigantes que são ilhas à deriva
sem a placidez das pedras tentando
à toa amarrar a correnteza do efêmero.
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QUETZALCÓATL
Ernesto Cardenal*
Quetzalcóatl, a Serpente de Plumas.
A serpente com plumas de quetzal.
Serpente-quetzal.
Terra e vôo.
A serpente era a terra
Devoradora de vida
E doadora de vida.
Serpente-pássaro = matéria alada.
União da terra com o céu.
Terra que sobe e céu que desce.
(Unidos no cimo da pirâmide.)
Cobra erguida e pássaro pousado.
Matéria ascendente à luz.
A batalha da luz
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Ele é o Deus Dialéctico Ometéoti
Vida-Morte
Mulher-Homem.
Transforma a morte em vida.
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O inventor dos homens, também assim o chamam.
Aquele que levou o milho à nossa boca.
O Casal Supremo
Ome-Tecutli e Ome-Cíhuatl
Senhor da Dualidade e Senhora da Dualidade.
E o filho?
Nós todos
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Os toltecas, que em romance podem chamar-se oficiais excelentes.
Tolteca = Artista
Toltecas: os pintores,
Os escritores de códices, os escultores.
Deles ficaram os sonhos
Em madeira, pedra, barro frágil.
(exertos das páginas 7 a 13 do livro POEMAS AMERÍNDIOS Poemas mudados para o português por HERBERTO HELDER Ed. Assírio & Alvim, Lisboa, 1997)
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Todas as sombras
Perce Polegatto*
Não me entendas teu amante suicida
que eu nem mesmo escreverei do nosso amor. Não
me abraces esperando que eu te ame, o que há
em nós não passa de conflito e são
enigmas além de teu segredo
o que me assalta de mansinho e me arrebata.
Não, não me tragas mais poesia nos teus olhos.
Há ventos estranhos, resíduos vivos,
há um desperdício de sangue nas fronteiras
e hoje tenho de morrer, morrer um pouco.
Há sarcófagos ocultos onde ainda repousam princesas,
há terríveis profecias trazendo devastações de gelo e fogo,
há livros enormes (dentro deles os heróis se sacrificam),
há astrônomos, videntes e palhaços, há um circo na cidade.
Vagam fantasmas de incerto destino, há névoa no ar.
Um pesadelo persegue as pessoas.
Mulheres soluçam, sozinhas de sexo.
A fome devora as aldeias.
( ...em outras galáxias, povos inteiros sucumbem,
um milênio e mais um, morrem civilizações e outras nascem
ao tempo em que sonho... )
Há pontes sombrias
e rios infinitos murmurando um pranto lamacento.
Há muralhas, cordilheiras, guerrilheiros,
há missionários perdidos na selva para sempre.
Há um velho solitário que conhece os segredos do inverno
e um gênio no fundo de um bar, esquecido.
Caem dinastias para sempre,
criam-se potências e tiranos dissimulados,
morrem bravos e covardes por amor,
séculos correm.
Há homens cavando uma mina distante,
fósseis que nos lembram os dilúvios fabulosos
e algas oceânicas em lamas primitivas.
Não esperes mais de mim que meu tormento. Há muito
me perdi nas águas cristalinas dos teus olhos,
embora nosso beijo no passado
fosse menos violento que as próprias tempestades do universo
em recentes espirais de estrelas jovens.
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MIL E SEM PÃES
Um ladrão entrou num super-mercado
E roubou um pão.
Dois ladrões entraram num super-mercado
E roubaram dois pães.
Dez ladrões entraram num super-mercado
E roubaram dez pães.
Cem ladrões entraram num super-mercado
E roubaram cem pães.
Mil ladrões...
(Do livro PREPOEMAS – LIVRO I – Edição do autor, Salvador, Bahia, 2006)
* Paulo Carvalho Mendes, popular LOLOCA, nasceu em Salvador, em 11/05/1957. Fez colegial nos Maristas, engenheiro mecânica (UFBA/1981), integrou e coordenou diversas equipes no pólo petroquímico de Camaçari (CEMAM).A partir de meados de 90 tornou-se artesão, ambientalista, militante comunitário e de movimentos sociais em Monte Gordo, Salvador, Chapada etc. Integrou e ainda colabora com diversas entidades (Irmandade Irmão Xavier, UNID, Poetas da Praça, WindLacoFest etc). Usa a sua poética para resgatar a voz e os direitos dos oprimidos.
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