POÉTICA

BETANÇA, A OFERENDA COLÍRICA
Durval Carvalhal*

Outrora,
Teu sorriso de anjo
Refletia a graça da Lua,
Quando lança,
Do colo azul do céu,
O eflúvio que equilibra,
Na Terra,
A balança das vicissitudes,
E embala,
Na cama da vida,
Os corpinhos lúbricos.

II
Dir-se-ia
Que era oferenda colírica
A cristianizar
A vocação atilana
Da semelhança divina.

III
Outrora,
Teu sorriso argênteo
Desmanchava em iodo,
A purificar a pereba do mundo,
Onde o soprar da Natureza
Era o reforço suavizante.

IV
Outrora,
Tua voz macia
Era doce música,
Invadindo ouvido adentro
A ninar mortais
Em imortal embevecimento,
Na perenidade
Que só a arte musical
Concebe aos espíritos.

V
Outrora,
Tu não tinhas, na face,
A languidez 
Que hoje corrói
Aquela alegria,
Aquele teu sorriso
E a doçura da tua voz,
Transformando-te
Em fruto peco,
Na espera da queda letal.

VI
Tua voz,
Tua graça,
Teu sorriso,
Tua alegria,
Tudo isso sumiu.

VII
Agora,
Estás nua no palco da vida,
Sem nenhum
Daqueles adornos,
Que te tornavam princesa.

VIII
Estás perdida
Na própria pequenez
Do teu espaço limitado.

IX
E porque, menina,
Não te voltas no tempo,
Para te encontrares no outrora,
Graciosa como Diana,
Sorridente como o Sol,
A declamar com o poeta:
“Natureza!  Eu voltei!
E eu sou o teu filho”?

*Baiano, domiciliado em Salvador, economista, aposentou-se em um banco federal, MBA em marketing, especialização em programação econômica (CPE/Ba), educador, diversas pós-graduações em  literatura e linguística, músico; tem livros publicados etc.


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BOIÚNA
Astrid Cabral*

Na preamar do meu sonho
bóia essa baita boiúna
a negra pele inconsútil
rente ao veludo da treva.
Jeito de inócua jibóia a
boiúna se arrasta dócil
no espaço azul do meu sono
mas o ímpeto do bote
fermenta-lhe o corpo enorme
e a qualquer piscar de hora
o porte de pura cauda
sacode o caudal do rio
e a centelha de seus olhos
logo incendeia-me o leito.
Medonha, a qualquer hora
derrama o fel da peçonha
e zás se arremessa às bordas
da cama onde vaga navego
e me afunda nas profundas
de um inferno feito d’água.
 

*Astrid Cabral Felix de Souza nasceu em Manaus – AM, em 25/set/1936, estudou letras vernáculas no Rio de Janeiro, lecionou literatura e inglês no ensino médio e na Universidade de Brasília (UNB), na década de sessenta. Ingressou no Itamaraty através de concurso público, trabalhou na Europa, Oriente e nos EE.UU. Foi cassada pela ditadura militar, anistiada em 1988, retornou aos quadros da UNB. Hoje colabora em várias revistas e mantém site na internet.


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URUBAMBA
Astrid Cabral

Línguas d'água
                   barbas e bigodes de espuma
o rio lambe as pedras qual bicho
                   as recém-nascidas crias.
Só que as pedras são filhotes das montanhas
                    paridos em antigo parto sísmico.
De longe até parecem um rebanho
                   cujas formas agudas se perderam
na lima de milênios. Lhamas? Vicunhas? Alpacas?
                   Algumas menores até lembram ovos fósseis
de extraviado pré-histórico lagarto ou ignoto sáurio.
                    Só que o rebanho pasta imóvel.
As pedras presas por raízes de peso
                    são pausas brancas e têm pacto
com as paquidermes montanhas
                   hieráticas em molduras sagradas.
Mas o Urubamba célere, incontido
                   foge do cárcere da cordilheira
a vasta muralha dos paredões a pique.
                    Pés d'água e rendas pelo ombro
ventre prenhe de trutas e murmúrio de mar na garganta
                    o caudal vai ultrapassando as pedras
rompendo o verde paralítico das margens
                   atrás do escancarado céu em frente
lá onde abraçado ao regaço do Amazonas
                    soma-se ao oceano arregaçando auroras
sustentando navios gigantes que são ilhas à deriva
                     sem a placidez das pedras tentando
à toa amarrar a correnteza do efêmero.
 


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QUETZALCÓATL

Ernesto Cardenal*
 
Quetzalcóatl, a Serpente de Plumas.
A serpente com plumas de quetzal.
       
          Serpente-quetzal.
                    Terra e vôo.
A serpente era a terra
                   Devoradora de vida
                   E doadora de vida.
Serpente-pássaro = matéria alada.
União da terra com o céu.
Terra que sobe e céu que desce.
(Unidos no cimo da pirâmide.)

        Cobra erguida e pássaro pousado.

Matéria ascendente à luz.
A batalha da luz

[ - - - -- - - - - - ]

Ele é o Deus Dialéctico Ometéoti

         Vida-Morte
                            Mulher-Homem.

Transforma a morte em vida.

[ - - - - - - - - - ]

O inventor dos homens, também assim o chamam.
Aquele que levou o milho à nossa boca.
O Casal Supremo
           Ome-Tecutli e Ome-Cíhuatl

           Senhor da Dualidade e Senhora da Dualidade.
E o filho?
           Nós todos

[ - - - - - - - - ]

Os toltecas, que em romance podem chamar-se oficiais excelentes.

Tolteca = Artista
            Toltecas: os pintores,
Os escritores de códices, os escultores.
Deles ficaram os sonhos
            Em madeira, pedra, barro frágil.

(exertos das páginas 7 a 13 do livro POEMAS AMERÍNDIOS – Poemas mudados para o português por HERBERTO HELDER – Ed. Assírio & Alvim, Lisboa, 1997) 


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Todas as sombras

Perce Polegatto
*


Não me entendas teu amante suicida

que eu nem mesmo escreverei do nosso amor. Não

me abraces esperando que eu te ame, o que há

em nós não passa de conflito e são

enigmas além de teu segredo

o que me assalta de mansinho e me arrebata.

Não, não me tragas mais poesia nos teus olhos.

Há ventos estranhos, resíduos vivos,

há um desperdício de sangue nas fronteiras

e hoje tenho de morrer, morrer um pouco.

Há sarcófagos ocultos onde ainda repousam princesas,

há terríveis profecias trazendo devastações de gelo e fogo,

há livros enormes (dentro deles os heróis se sacrificam),

há astrônomos, videntes e palhaços, há um circo na cidade.

Vagam fantasmas de incerto destino, há névoa no ar.

Um pesadelo persegue as pessoas.

Mulheres soluçam, sozinhas de sexo.

A fome devora as aldeias.

( ...em outras galáxias, povos inteiros sucumbem,

um milênio e mais um, morrem civilizações e outras nascem

ao tempo em que sonho... )

Há pontes sombrias

e rios infinitos murmurando um pranto lamacento.

Há muralhas, cordilheiras, guerrilheiros,

há missionários perdidos na selva para sempre.

Há um velho solitário que conhece os segredos do inverno

e um gênio no fundo de um bar, esquecido.

Caem dinastias para sempre,

criam-se potências e tiranos dissimulados,

morrem bravos e covardes por amor,

séculos correm.

Há homens cavando uma mina distante,

fósseis que nos lembram os dilúvios fabulosos

e algas oceânicas em lamas primitivas.

Não esperes mais de mim que meu tormento. Há muito

me perdi nas águas cristalinas dos teus olhos,

embora nosso beijo no passado

fosse menos violento que as próprias tempestades do universo

em recentes espirais de estrelas jovens.

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Álbum

Perce Polegatto
*

 

Pó sobre os retratos (não adianta soprar), sépia

minando varandas, jardins intransponíveis.

 

Espessa é a capa do tempo.

E tu, fantasma extraviado de meu sonho, sempre

me apontas escuro em tua lâmina de vidro.

                     Branco – com o que há de sombra.

                     Cinza – com o pó que me mostraste.

A tudo o que contas escuto sem medo, sei:

mal resta aos que já não são

esmolar chances do que já não podem

e não me ocorre nenhuma outra palavra,

filho.

* Perce Polegatto é um ficcionista e educador que reside em Ribeirão Preto, SP. Publicou as seguintes obras: A canção de pedra (1985), A seta de Verena (2001), Lisette Maris em seu endereço de inverno (2001 e 2005, 1ª edição e 2ª edições, respectivamente), Diário contra o destino (2002) e Os últimos dias de agosto (2008).

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Quinhetos anos de Matança
Crônica poema em tributo aos ameríndios.
Escrita por José de Arimatéa Nogueira Alves
em abril de 2000, como reflexão
dos 500 anos do "achamento" do Brasil.

Clique aqui para ler o artigo na integra

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Poesia de Loloca*

SEM TÍTULO (Salvador, 22/set/03)

LOLOCA

 

     LOCA

 

        OCA

 

MALOCA

 

CORAÇÃO

 

        AÇÃO

 

MORADA DE ÍNDIO

 

MORADA DE MENDIGO

 

MORADA DE JURUPARI

 

 

 

MIL E SEM PÃES

 

Um ladrão entrou num super-mercado

E roubou um pão.

 

Dois ladrões entraram num super-mercado

E roubaram dois pães.

 

Dez ladrões entraram num super-mercado

E roubaram dez pães.

 

Cem ladrões entraram num super-mercado

E roubaram cem pães.

 

Mil ladrões...

 

(Do livro PREPOEMAS – LIVRO I – Edição do autor, Salvador, Bahia, 2006)

* Paulo Carvalho Mendes, popular LOLOCA, nasceu em Salvador, em 11/05/1957. Fez colegial nos Maristas, engenheiro mecânica (UFBA/1981), integrou e coordenou diversas equipes no pólo petroquímico de Camaçari (CEMAM).A partir de meados de 90 tornou-se artesão, ambientalista, militante comunitário e de movimentos sociais em Monte Gordo, Salvador, Chapada etc. Integrou e ainda colabora com diversas entidades (Irmandade Irmão Xavier, UNID, Poetas da Praça, WindLacoFest etc). Usa a sua poética para resgatar a voz e os direitos dos oprimidos.

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