ARTIGOS

TainaTAINÁ, 
A CULTURA INDÍGENA 
NO CINEMA BRASILEIRO


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QUEM PODE SER CONSIDERADO ÍNDIO NO BRASIL? 
Excelente resposta cultural e acadêmica aos que menosprezam 
a herança indígena. 
Por: Eduardo Viveiros de Castro - Antropólogo

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indios4Indiodescendência, 
o que é?
Diálogo entre Ary Txay (Bahia) 
e Marco Antônio Soares (RS)


Quem são os índios? Onde vivem? Como vivem? O que é cultura indígena? O que é etnia indígena? Que atributos definem o direito a uma etnia ou um perfil étnico? O que é identidade e etno-identidade? O que é ser índiodescendente? Quem são os indiodescendentes? Indiodescendente é uma etnia ou uma identidade? O que é autodefinição, de direito e de fato?
 

Como visto são inúmeras as indagações e os conceitos que elaboramos no campo sócio-antropológico, filosófico, poético etc. No entanto há indagações aparentemente mais simples que nem sempre encontram respostas adequadas porque as pessoas não conseguem expressá-las ou ficam mudas ou respondem aparentes disparates. As duas perguntas que não querem calar são as seguintes:

 

- Como definir o povo brasileiro?

- Como se define o povo brasileiro?

 

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Maria dos Anjos Paulino Guajajara – (2001-2008)
Na calada da noite, pistoleiros invadem uma aldeia indígena.
Os tiros que se seguem rasgam o véu de silêncio em meio à noite escura.
Maria dos Anjos Paulino Guajajara, de apenas 6 anos de idade,

em meio a seu sono de criança, tem a vida interrompida por um tiro na cabeça.

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Acre teve sociedade indígena complexa

 

Cientistas mapearam mais de 200 sítios arqueológicos com trin-cheiras, estradas e possíveis características de defesa Brasileiros e finlandês usam imagens aéreas e de satélite para achar ocupação; grupo propõe que área tinha densa população há 700 anos

 

Folha de São Paulo, São Paulo, domingo, 10 de janeiro de 2010 

REINALDO JOSÉ LOPES DA REPORTAGEM LOCAL

 

Estranhos e gigantescos padrões geométricos no solo desmatado do Acre estão dando novo peso à hipótese de que a Amazônia antes de Cabral estava repleta de sociedades complexas, com grande densidade demográfica. Trincheiras de 11 m de comprimento e até 3 m de profundidade delimitam áreas que podem ter sido fortalezas ou centros cerimoniais, afirma um grupo de pesquisadores. Como é muito mais fácil detectar o desenho dessas estruturas de cima, a bordo de um avião ou com imagens de satélite, elas são mais conhecidas como geoglifos, por analogia com os misteriosos desenhos da região de Nazca, no Peru. Mas, em vez de sinalizar mensagens para os céus, as marcas no solo acreano revelam a antiga presença humana, com vestígios de cerâmica, ferramentas de pedra e carvão de fogueiras.

 

Visão de conjunto

Os dados mais recentes sobre os geoglifos estão em artigo na última edição da revista científica "Antiquity", assinado por Denise Schaan, da Universidade Federal do Pará, Alceu Ranzi, da Universidade Federal do Acre, e Martti Pärssinen, do Instituto Iberoamericano da Finlândia. Por enquanto, a equipe conseguiu datar os restos de carvão em apenas um dos sítios arqueológicos, cuja existência parece recuar ao ano 1200 ou 1300 da Era Cristã. O período bate com outros complexos semelhantes da Amazônia pré-colombiana, como os da região do Xingu. Novas amostras para datação "estão sendo processadas e devem revelar dados a qualquer momento", disse à Folha Alceu Ranzi, que vê semelhanças e diferenças importantes entre a ocupação antiga do Acre e a do Xingu. Nos dois locais, há a presença, por exemplo, de grandes trincheiras circulares e de estradas largas unindo possíveis áreas de habitação.

 

No Acre, as áreas marcadas pelos geoglifos só apareceram porque houve desmate recente, o que significa que, no passado, a área ocupada por populações indígenas era muito maior -inferência que também é feita para o Xingu. "Por outro lado, no Xingu ainda parece haver uma tradição que liga os cuicuros [tribo da região] às antigas vilas, enquanto os índios daqui não têm isso em sua memória histórica", diz Ranzi. O pesquisador também ressalta que os povos xinguanos estão na fronteira entre a floresta amazônica e o cerrado. "Já aqui é mata fechada, "rainforest" [nome inglês para mata tropical densa] mesmo. Eu tendo a achar que, por razões climáticas, como grandes El Niños, o ambiente era aberto no Acre quando essa ocupação existia", afirma Ranzi. Outra possibilidade é que a presença populacional fosse tão densa que ocorreu uma derrubada significativa da mata para construir os centros que correspondem aos geoglifos.

 

às centenas

Seja como for, Schaan, Ranzi e Pärssinen relatam um número considerável de possíveis sítios -mais de 200, por enquanto, o que corresponde a uma estimativa modesta, segundo eles, porque muita coisa ainda pode estar debaixo do dossel da mata ainda intacta. É uma área de uns 250 km de raio na bacia do rio Purus, que também avança do Acre rumo ao Estado do Amazonas. A população estimada para a região seria de 60 mil pessoas, propõem eles.O diâmetro das áreas delimitadas pelas trincheiras vai de 90 m a 300 m. Parece haver uma tendência a encontrá-las em pequenas elevações, das quais pode se ver a planície de rios mais abaixo -em tese, uma excelente posição defensiva caso os geoglifos marquem mesmo áreas fortificadas. Outra possibilidade é que o cuidado com a geometria dos locais reflita uma função ritual. E o grupo não descarta uma hipótese bem mais prosaica: para sustentar as populações densas, as trincheiras poderiam ser açudes, repletos de peixes e tartarugas semidomesticados.

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Indiodescendência - Fundamentando o Conceito

Celene Fonseca (antropóloga)*

 

A finalidade deste documento é apresentar algumas considerações sobre o conceito de "indiodescendência" e sobre a caracterização do indiodescendente, de modo a subsidiar estudos que visem a inclusão desse novo grupo étnico nas Políticas de Ação Afirmativa que vem sendo implementadas no Brasil. Mesmo sem citá-las expressamente, o documento já incorpora as críticas mais freqüentes, feitas por indígenas e indigenistas, aos dois termos.

 

*Celene Fonseca, mini curriculum:

Mestre em História e Civilizações (EHESS - Paris, FR). Graduada em Ciências Sociais (Antropologia) pela Universidade Federal da Bahia, pesquisadora do Centro de Estudos Afro-índio-Americanos (CEPAIA/UNEB-Salvador/Ba). Fundadora da UNID e membro do Conselho Consultivo dessa entidade. Teve participação destacada no Movimento Brasil Outros 500 e na Batalha dos 500 Anos (Porto Seguro/ Cabrália, abril 2000).

 

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I IUKAPYRAMA*

 

José Carlos Bahiana Machado Filho*

22 de Julho de 2009

 

Arasy nasceu uma menina bonita e sadia. A sua mãe ficou muito feliz com a sua presença, mas a pequena Arasy nasceu com um pequeno defeito: tinha o seu pezinho esquerdo com uma leve seqüela de nascença que o deixava torto. Iria ser uma kã-penga (aleijada) se por acaso crescesse. Na mesma noite do seu nascimento Arasy foi sacrificada. O seu próprio pai fez uma cova nas cercanias da aldeia e enterrou viva a pequena Arasy.

 

Pindobusu também nasceu um menino bonito, mas era mais fraquinho que o seu irmãozinho gêmeo Aimberê. O seu pai vendo que pela tradição não era auspicioso ter filhos gêmeos, teria que sacrificar um deles e assim sendo resolveu sacrificar Pindobusu enterrando-o no mato. Moema, sua tia ficou algum tempo ao lado do buraco onde se ouvia o choro do pequeno Pindobusu quase sufocado e isso a fazia sofrer terrivelmente, tanto que quando todos se ausentaram, Moema desenterrou o pequeno kunumim e o levou para casa às escondidas, tratando dele e criando como se seu próprio filho fora. Hoje, Iramaia, a sua mãe biológica reconhece Pindobusu como um belo homem e Moema como a sua verdadeira mãe.

 

Assim como os animais, os índios tradicionalmente abandonam aqueles filhos que nascem com defeitos físicos, pois esses são para eles improdutivos e a dura lida diária na floresta não propicia que se tenha condição de cuidar de mais um ser que para eles será incapaz de caçar, pescar ou sobreviver sobrinho. Quanto ao nascimento de gêmeos acredita-se que seja uma maldição dos espíritos sobre a família. O infanticídio nesses casos é tradicional nas comunidades indígenas e um fator que incrementa as cifras de mortalidade entre as criancinhas. Cabe àqueles que tenham um maior conhecimento convencer os índios de que não se deve eliminar suas criancinhas por defeito físico ou quaisquer outros fatores, pois todos têm o direito à vida.

 

* Nota: I = ele, aquele; Îukapyra = morto; Îukapyrama = futuro morto; I Îukapyrama = aquele que será morto.

 

** José Carlos: Bahiana Machado Filho é presidente do Instituto Kaapor (OSCIP), conselheiro da UNID – União Nacional dos Indiodescendentes, licenciado no campo educacional, professor de inglês, português e literatura, além de pesquisador da língua tupi antigo (Nheengatu). Também assessor da direção do SINDIQUIMICOS (Salvador) e guia de turismo ecológico-cultural.

 

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ADORÁVEIS MULHERES CANIBAIS

 

Passagem do livro " no prelo " INDIOS E ÍNDIOSDESCENDENTES EM SALVADOR: IDENTIDADE, MEMÓRIA E ALTERIDADE, de José de Arimatéa Nogueira Alves

 

Em “De Cunha à Mameluca” João Azevedo Fernandes estudou parte do processo de transculturação ocorrido com os tupinambás, tendo por foco o universo feminino. FERNANDES fez um recorte do mais comentado (nem por isso o mais estudado) costume tupinambá, o canibalismo, associando-o às mulheres antropófagas. O citado estudo, à luz de fontes selecionadas com rigor, analisa o dilema da perda do poder e da importância social das mulheres tupinambás, principais responsáveis pela manutenção dessa cerimônia ou banquete ritual. Cabia a essas mulheres não apenas a preparação, mas também a execução do ritual antropofágico, condenado pelos “civilizados” e rigorosamente combatido pelos jesuítas, notadamente por Nóbrega e Anchieta, esse último “... um judeu basco, que falava latim, escrevendo em tupi”, conforme afirma RISÉRIO (op. cit. pg. 215). Enfim, ao abandonar o ritual (macabro, para nós “civilizados”) as mulheres tupinambás perderam status e respeitabilidade na hierarquia tribal, inclusive a solidariedade dos homens, familiares e parceiros. O que elas poderiam fazer diante do confronto inesperado, da pressão civilizatória e cristianizadora?

 

Um das conclusões contidas no ensaio de FERNANDES é a de que as mulheres tupinambás cederam e passaram a ver a relação com os jesuítas e com as suas aldeias uma saída para a sobrevivência social e cultural. A iconografia histórica oferece-nos  elementos que enriquecem os estudos sobre a evolução da mulher na sociedade, inclusive as mulheres tupinambás, tupiniquins, tapuias e mamelucas. Um acurado olhar sobre a iconografia selecionada por FERNANDES (op. cit. pgs. 282 [figura 2] e de 290 a 292, respectivamente) revelam uma profusão de elementos sociais, simbólicos e representacionais contidos nas seguintes criações: América (Phillipe Galla, 1579-1600), Mulher Tupinambá (A. Eckhout, 1641), Mulher Tapuia (A. Eckhout, 1643) e Mulher Mameluca (A. Eckhout, 1641). Portanto, há uma indagação que está aberta a nossa reflexão: o que as mulheres de Salvador herdaram das nossas “adoráveis” antropófagas?

 

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                         UM TAL MANDU LADINO

 

                             Pmandu_ladino_3ublicado no jornal O PIAGÜI, de Parnaíba, Piauí, em maio de 2009 por José de Arimatéa Nogueira Alves*

 

A partir da última década do século XX vimos ampliar-se o interesse pela história desse personagem conhecido por Mandu Ladino, o líder da guerra de resistência à expansão colonial no século XVIII. A área de atuação desse guerreiro abrangia o baixo e o médio vale do Rio Parnaíba (Maranhão e Piauí) e as regiões limítrofes com o Ceará (da Serra da Ibiapaba ao litoral). O historiador Monsenhor Chaves em sua monografia O Índio no solo Piauiense (FC Monsenhor Chaves, Teresina/1998) afirma: "De 1712 para 1713 houve o levante geral de todos os tapuios do norte. Desta vez os selvagens obedeciam à orientação de um índio perigoso que se chamava Mandu Ladino [...] Inteligente, astuto e vingativo, Mandu-Ladino mobilizou as tribos rebeladas, dividindo-as em guerrilhas..." (pg.137). As informações sobre Mandu Ladino e a guerra dos tapuios são fragmentárias e escassas. Nos anos oitenta (século XX) Luiz R. B. Mott, mestre em etnologia pela Sorbonne e doutor em antropologia pela UNICAMP/SP, prestou notável trabalho aos estudos históricos piauienses. O livro de MOTT, PIAUÍ COLONIAL foi editado em cooperação com a Secretaria de Educação e Cultura do Estado do Piauí (Teresina, 1985). No conjunto de documentos sobre a formação e evolução histórica do Piauí Mott, localizados e interpretados por Mott, alguns se referem à guerra de resistência dos povos indígenas, a guerra dos tapuios. O nome de Mandu Ladino emergiu em alguns desses relatos.

 

Guerrilheiro, Santo ou caudilho?

MOTT recorreu à pesquisa bibliográfica para robustecer seu ensaio, entre os quais a Corografia Brasílica (1817) do padre Aires de Casal, onde consta, dentre outras informações a de que os indígenas "[...] deram de fazer [...] na vizinhança do Poti, comandados por um índio doméstico [Mandu Ladino] que fugira de uma aldeia de Pernambuco [o qual] pereceu violentamente, a tempo que nadava para a outra banda do Parnaíba. Mandu Ladino era seu nome vulgar" (pg.118), referindo-se a fatos ocorridos cinqüenta anos antes de 1760.

 

O citado autor também recorre à Memória Cronológica, Histórica e Corográfica da província do Piauí, de José Martins Pereira D´Alencastre, datada de 1855, onde apresenta uma cronologia da qual selecionamos a seguinte parte: - 1713: Levantamento geral dos índios, capitaneados por Mandu-Ladino. - 1716: Morre o caudilho Mandu-Ladino [...] ( pg.120). Na mesma obra (pg. 131) MOTT cita a obra Cronologia histórica do Estado do Piauí, desde os seus primitivos tempos até a Proclamação da República em 1889, de Pereira da Costa, F.A., editada pela Tipografia do Jornal de Recife, em 1909: "... nos anos de 1711 – 1712 o Piauí é invadido por uma destruidora horda de índios capitaneados por Mandu Ladino, um índio doméstico escapado das missões jesuíticas do Maranhão".

 

Os dados sobre a vida de Mandu Ladino são escassos; não é sabido o seu local de nascimento. Também há divergências quanto aos locais e as datas (inclusive a data da sua morte) em que ocorreram alguns embates com os comandados desse guerrilheiro. José Martins Pereira D´Alencastro, em sua Memória Cronológica, Histórica e Corográfica da Província do Piauí, editada em 1855, citada por MOTT (pg. 120),     informa: "   _1716: Morre o caudilho Mandu-Ladino ..." . O professor e pesquisador Iweltman Mendes, por sua vez, noticia no seu livro A Parnaíba Colonial e Imperial   - 1599 a 1889 (UFPI. Teresina, 1996, pg. 16): "- Morria em combate junto à Vila de Parnaíba, o índio Mandu Ladino, que liderou a sublevação geral dos Tapuias no Norte do Piauí, em 1712". Diderot Mavignier, em No Piauhy, na terra dos Tremembés (Sieart   - Gráfica e Editora, Parnaíba, 2005, pg. 41), afirma:  "... após anos de lutas, Ladino foi morto em 1716, no Porto das Barcas." [Parnaíba]. Consta na plaqueta fixada sob a escultura de Mandu Ladino existente no Centro de Artesanato da Praça Pedro II, em Teresina:

 

"... morto em 1717, no Porto das Barcas" [Parnaíba]. De todo modo, considero irrelevantes as divergências acima enumeradas. Mais importante é a consciência formada a partir da reflexão e do debate sobre a ação revolucionária de Mandu Ladino e dos seus companheiros.

 

A integração e a associação desses episódios históricos (rebeldia indígena, resistência aos colonos invasores) à problemática contemporânea poderão despertar a consciência coletiva que não brota espontaneamente. Mandu Ladino é um personagem em busca de guarida, de reconhecimento. A bibliografia histórica piauiense sempre contemplou e glorificou, em larga escala, personagens vinculadas às classes do poder ou ditas produtivas no âmbito monárquico-imperial ou eclesiático. É justo considerar o contributo das classes subalternas, mesmo quando subjugadas pela escravidão, seja a indígena, africana ou afrobrasileira. Mandu Ladino, autêntico representante das classes oprimidas, tinha matizes históricas, sócio-culturais e simbólicas que o consagraram como herói do povo piauiense. Um lutador que está no mesmo patamar histórico de Cunhambebe (SP), Ajuricaba (AM e PA), Araribóia (RJ) e Sepé Tiaraju (RS), todos, intrépidos guerreiros.

 

A questão do mito

Judith Cortezã, historiadora portuguesa, PhD em história social, afirmava, em entrevista concedida à TV Educativa (SP), em meados do ano 2002: "... o mito é tão importante ou mais importante que a história". O antropólogo Antônio Risério partilha da mesma idéia, como pode ser visto seu livro A Utopia Brasileira e os Movimentos Negros (Ed. 34, SP/2007, pgs. 422/3): "Cumpre, portanto, fazer com que o mito se encarne na história". A classe política, religiosa, o campo artístico e esportivo são geradores de mitos. No entanto, os mitos nativos, indígenas também existem no meio e no imaginário do povo. Zumbi dos Palmares é um bom exemplo disso. No México, San Juan Diego, um padre nascido em uma aldeia indígena, é reverenciado como o primeiro santo indígena canonizado pela igreja católica. Darcy Ribeiro refere-se a um São Negrinho do Pastoreio na sua fábula Utopia Selvagem   - saudades da Inocência Perdida (Editora Leitura, Belo Horizonte, 2007, pg.73). Convém lembrar que os nossos índios também eram chamados de negros da terra.

 

Um Santo Guerreiro?

A Igreja Católica é pródiga na entronização de santos guerreiros; o mais destacado deles é São Jorge, que teria vivido no século III da era cristã, período em que os católicos eram perseguidos pelo imperador Daciano. Consta na sua lendária história que enfrentou e venceu um terrível dragão, um monstro indissoluvelmente associado a imagem do Santo Guerreiro.

 

Joana D´Arc, por sua vez, tem sido "... utilizada como padroeira das mais diversas causas políticas...", conforme Maria do Carmo Peixoto Pandolfo (in Joana D´Arc, Semiologia de um Mito, Editora Grifo/RJ, 1977, pg.25). A biografia dessa santa guerreira inscreve-se no contexto da Guerra dos Cem Anos, conflito ocorrido entre a França e a Inglaterra entre 1337   - 1453, portanto, com duração efetiva de 116 anos. Os gaúchos valorizam apropriadamente a figura de Sepé Tiaraju, indígena guarani, guerreiro e herói resistente aos invasores lusos e espanhóis, morto em combate em 1756. Há uma cidade no Rio Grande do Sul chamada São Sepé, um santo-guerreiro tão real quanto foi Mandu Ladino, no Piauí, onde existe um município chamado São Miguel dos Tapuios. Em meados de 2006 não me surpreendi com a notícia de que uma família de caboclos ou de "nativos" do bairro Piauí, em Parnaíba, tinha em seu quintal um nicho com a imagem de um "São Mandu Ladino", um milagreiro, segundo afirmavam. Pelo visto, os tapuios já não querem depender do Vaticano, saíram da condição de coadjuvantes do santuário católico.

 

Mandu Ladino, de certa forma, já está presente nos cultos de candomblé e de umbanda, através das entidades caboclas. Bem antes da guerra contra os tapuios do Nordeste um grupo de índios, mamelucos e caboclos fundou na vila de Jaguaripe (recôncavo baiano) o mais antigo culto sincrético nativo-católico que se tem notícia no Brasil. Essa igreja, que tinha um "papa", uma "Nossa Senhora", chegou a ter um templo no interior de uma fazenda, destruída por ordem do governador da província...

 

Livros, monografias e poemas

Convém louvar todas as iniciativas que resultam em publicação, investigação, discussão ou poematização da saga de Mandu Ladino, ampliado o número de pessoas interessadas por esse personagem. Diderot Mavignier, escritor citado anteriormente, é um dos caçadores da gesta desse indígena guerreiro. Régis de Athayde Couto, ocupante cadeira nº 2 do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Parnaíba, elaborou em maio de 2007, um discurso reverenciando Mandu Ladino, patrono dessa cadeira.  Anfrísio Neto Lobão Castelo Branco, médico e membro da Academia Piauiense de Letras publicou, em 2006, Mandu Ladino –- Romance, pela Gráfica Editora Halley (Teresina). Trata-se de um trabalho muito bem elaborado em que o autor, ainda que trabalhando no campo ficcional, recriou, reescreveu, reavivou a história e o cenário da época de Mandu Ladino, dando vida a esse personagem, como pode ser lido na pg. 174: "Mandu Ladino passou então a sonhar com uma libertação que não significasse só tomar de volta as rédeas da sua própria vida, mas algo muito mais amplo que envolvesse também a sua terra e sua gente." No mais, registro com entusiasmo o fato de que no mês de outubro de 2008, encontrei nas prateleiras de uma lojinha do aeroporto de Teresina esculturas que representavam figuras indígenas. Indagando à atendente fiquei sabendo de que se tratava da representação do cacique e da companheira de Mandu Ladino

(Salvador, Bahia, abril de 2009)

 

* José de Arimatéa, também conhecido como Ary Txay, nasceu em Parnaíba (1946) onde fez o colegial no CELR. Passou a morar em Pernambuco, a partir de 1965 e em Salvador, a partir de 1969; fez bacharelado em administração pública (UFBA) e pós na Holanda. Em 1996 aposentou-se na função de gerente em um banco federal. Hoje se dedica a pesquisar e escrever no campo da cultura. Está prestes a publicar os seguintes livros: Identidade Piauiense  - Natureza, Sociedade e Cultura e Índios em Salvador  - Identidade, Memória e Alteridade.

 

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AUTODEFINIÇÃO E PERTENCIMENTO

 

Ary Txay - 25 de Abril de 2008

 

Hoje, a Fundação Pedro Calmon realizou mais uma etapa das CONFERÊNCIAS MEMÓRIA DOS MOVIMENTOS SOCIAIS DA BAHIA. Presentes José de Arimatéa N. Alves, Maria Angélica G. Alves (professora) e Celene Fonseca (antropóloga), associados da UNID. “A Luta dos Povos Indígenas” era o tema, pertinente não só pela proximidade do dia 19, mas pela conjuntura conflitiva que envolve, permanentemente, os povos indígenas da Bahia e de todo o Brasil. Wlamira Albuquerque, Diretora de Arquivos da Fundação Pedro Calmon, conduziu a mesa com brilhantismo e de forma democrática. Presentes o cacique Pataxó Aruanã (Cora Vermelha/Sul da Bahia), Jerry Matalawe (Representa os povos indígenas na SJCDH/BA), além dos palestrantes Ubiratan de Castro (Presidente da Fundação, doutor em história) e Maria do Rosário Gonçalves de Carvalho (Doutora em antropologia). Também presentes Florência Vaz, doutorando pela UFBA, originário da etnia Mataypu (AM) e Wilton Tuxá (APOINE). Lamentavelmente dois jovens indígenas, cotistas da UFBA, fizeram o discurso da intolerância denunciando, equivocadamente, os "índio-descendentes" como usurpadores das vagas de cotistas que, imaginam, seriam deles. Pena que esses jovens, além de constranger que apóia a sua causa sequer sabem distinguir quais são os seus verdadeiros inimigos. Fazer "denúncias vazias" e infundadas é um comportar-se levianamente, o que só traz desapreço e mágoa às pessoas de boa-fé, comprometidas com essa bela causa, a indígena. Os jovens pataxó desconhecem que a inclusão de "índios" e "índio-descendentes" nas políticas da UFBA transformaram essa universidade em referência nacional e mundial, visto que a mesma em um só ato funda a visão de respeito à herança, à tradição e à alteridade relacionada aos valores dos povos indígenas, ao lado dos negros, todos oriundos da escola pública.

 

A história nos ensina que os índios tupinambás e tupiniquins foram os primeiros povos destroçados ou desestruturados social e culturalmente, em meados do século XVI. Os povos do Nordeste chamados "tapuias" tiveram o mesmo destino nas criminosas "guerras justas" (séculos XVI/XVII). Os "salvados" do genocídio indígena, apesar do profundo golpe reorganizaram-se de forma diversa e em tempos diferentes, mas nem todos tiveram essa chance.

 

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